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quarta-feira, 25 de julho de 2012

o embaraço da escolha:

 

 cidadão exemplar depois de ouvir um discurso do Passos Coelho 


cidadão exemplar depois de ouvir um discurso do António José Seguro

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Arthur & George, questões de cidadania

Arthur & George é um livro de Julian Barnes (Leicester, 1946) de 2005.

O tempo situa-se na passagem do séc XIX para o séc XX, na Inglaterra vitoriana, orgulhosa do seu império colossal, do progresso e riqueza conseguidos com a revolução industrial a par das suas tradições democráticas e da estabilidade das suas instituições modelares que irradiaram do centro imperial para o resto do mundo em "desenvolvimento", harmonizando modos de vida numa perspetiva de encontro universal civilizado.
Neste período em que a modernidade perspetivava para breve a felicidade geral, surgem os acontecimentos conhecidos como "Os ultrages de Great Wyrley", que mostram o reverso do que a ideologia oficial pregava, que se escondia entranhado na "bondade" da aparente marcha para o entendimento universal. George Edalji é inglês de ascendência parsi e nunca esteve na Índia. Filho de um vigário anglicano, parsi, e de mãe escocesa, foi um estudante "normal", mas diferente dos seus colegas. Fervoroso adepto da lei e da racionalidade normativa como modo de tornar o mundo civilizado organizado, claro, prático. Homem solitário, rotineiro e previsível, foi acusado de esventrar gado na aldeia de Great Wyrley.
Surge um dos temas mais importantes: o preconceito enraizado que transforma todos os factos em elementos de prova inequívocos, justificando e afirmando a ideia pré-formada de rejeitar o que é diferente. George é julgado e condenado por crimes que não cometeu porque as vistas curtas do sistema policial e judicial foram decidindo que todos os atos do suspeito obedeciam a um cérebro doentio e perverso que manipulava os elementos de prova de modo a sair impune, numa tentativa puramente maléfica de prejudicar a paz social, atentando contra a propriedade e ridicularizar a justiça. Este tipo de preconceito, contrário à clareza do espírito científico oficial da época é o que promove a xenofobia e a exclusão do que aparenta não se conformar com a normalidade mais básica. E quando se generaliza endemicamente numa nação conduz à repressão social, étnica, política, recusando a liberdade e a afirmação individuais. Conduz ao fascismo e ao nazismo, que surgiram vários anos depois destes acontecimentos.
Outro tema surge com o interesse de Arthur (Conan Doyle) pelo evidente erro judicial. Escritor famoso pelas aventuras de Sherlock Holmes, decide reparar a injustiça flagrante. Como figura pública assume que pode contribuir para ilibar George, entretanto preso. E, como tal, poderá ter um papel na reforma do sistema judicial. Age como um paladino da justiça, num ideal romântico de voluntarismo pela causa, como um cavaleiro medieval que leva a sua luta até às últimas consequências, afrontando clara e diretamente as instituições, confiando na aceitação pública do seu ato cívico. Assume as características do homem novo burguês, idealista, com preocupações sociais, interveniente e positivo.
Neste desenvolvimento os valores individuais das duas personagens são postas em confronto, revelando-se as limitações de cada um. George,  advogado e legalista em extremo não consegue defender-se. O mestre do romance policial não lida convenientemente com a investigação real e concreta e "torce" os procedimentos para chegar aos seus objetivos.
Pelo meio regista-se a crença de Arthur no espiritismo, que aparece como um modo de tornar empírico o que é do domínio da crença (a existência das almas e da vida para além da morte) numa espécie de mergulho do olhar paracientífico (psicológico?) no que tinha pertencido ao obscurantismo desde tempos imemoriais.

Outros temas são tratados de modo articulado com os referidos, estruturados numa escrita em "montagem" paralela, indo do mundo de Arthur para o de George, numa aparência de realismo documental. A objetividade é apresentada como uma indeterminação definida pelos limites do sujeito que vislumbra mais além, mas que avança tacteando pelo caminho traçado por si, em que a realidade se confronta com a ideia que se tem dela. Escrito também em forma de policial, um produto típico do séc XIX, que resulta também de prospeções sobre o manifesto e o oculto na complexidade da sociedade moderna e da sua moral e da dialética entre a sociedade e as suas manifestações ideológicas.

O livro editado pela ASA, anda por aí em saldo. Na Bertrand, custa 10 euritos. Se calhar vale a pena.
                                                                                        
Julgamento de Geoge Edalji


(todas as imagens foram rapinadas da net, com as devidas autorizações feitas num acordo de cavalheiros.)


Luís, cidadão